Opção por tratamentos novos ainda sem comprovação científica ou questionados pela literatura médica pode trazer riscos para pacientes

A evolução dos tratamentos de Reprodução Assistida vem reacendendo as esperanças de casais que precisam da ajuda da ciência para constituir e aumentar a família. Desde a descrição da primeira gravidez com o uso da fertilização in vitro, em 1978, e o nascimento de Louise Brown, a medicina reprodutiva foi beneficiada por um acelerado avanço tecnológico, o que tem permitido o surgimento de novos procedimentos. Mas, conforme orienta a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), é preciso ter prudência na escolha do procedimento, já que muitos não têm comprovação científica, o que pode levar a efeitos adversos ou até mesmo reduzir as chances de gravidez, além de aumentar os custos do tratamento.


A realização de inseminação artificial doméstica é um dos métodos que vem ganhando adeptos a cada dia e preocupa especialistas da área. O ginecologista e ex-presidente da SBRA Selmo Geber adverte que a realização de tratamentos de reprodução assistida de forma caseira, ou seja, sem os cuidados de um médico experiente ou condições sanitárias adequadas, é muito preocupante. “Além dos riscos de contaminação, esses tratamentos podem trazer perigo para a saúde da mulher e do feto. São procedimentos arriscados, realizados sem nenhum acompanhamento, que podem resultar em doenças e infecções graves”, diz.


Para o ginecologista, casais com dificuldade para engravidar precisam ter o acompanhamento de um médico com experiência em reprodução humana, que vai realizar toda a investigação necessária para identificar as causas da infertilidade e apontar as melhores alternativas para solucionar o problema de forma personalizada, preservando a fertilidade do casal e conseguindo uma gravidez saudável e tranquila. “O ideal é ter um médico de confiança e com experiência científica comprovada. Com a assistência adequada, a grande maioria dos pacientes pode superar os obstáculos e realizar o sonho de forma segura”, orienta.


Geber também pontua a existência de procedimentos novos que já vêm sendo usados, mas precisam de comprovação científica para alcançarem resultados satisfatórios e eficientes para quem objetiva uma gestação futura . “Podemos citar a injúria endometrial e as terapias imunes, que têm relação com o útero mas não apresentam nenhum efeito positivo comprovado no sentido de aumentar as chances de gravidez, além de oferecerem riscos de efeitos adversos nas pacientes”, diz.


Em relação à injúria endometrial, o médico explica que consiste na realização de uma lesão no endométrio que visa aumentar as chances de sucesso da implantação do embrião. Mas, segundo explica o especialista, apesar de não oferecer risco para a saúde da paciente, assim como acontece com as terapias imunes, é um procedimento doloroso e não apresenta eficiência comprovada.


Já no rol dos novos procedimentos relacionados ao embrião, Selmo Geber faz um alerta para o uso da biópsia embrionária como técnica de rotina, como é o caso do PGT-A (teste genético pré-implantacional para aneuploidias), que pode impactar nos resultados quando utilizado inadequadamente. “Sem a indicação necessária, essa biópsia pode representar riscos para o caso: além de aumentar muito o custo do tratamento, pode reduzir a taxa de gravidez”, alerta.


O médico ainda chama a atenção para o uso de tecnologias mais atuais no acompanhamento do desenvolvimento embrionário em tempo real, como é o caso de incubadoras time-lapse, recurso que, além de aumentar o custo do tratamento, não tem comprovação quanto às chances de gravidez. Segundo ele, diversos estudos mostram a eficiência deste recurso para a análise e seleção embrionárias, mas é bom ter prudência na sua utilização.


“Até o momento, não temos certeza de que essa seleção possa aumentar a chance de gravidez ou reduzir o risco de aborto. Neste sentido, por se tratar de uma tecnologia extremamente cara, consideramos que é preciso aguardar mais tempo para que outras pesquisas apontem novos dados a fim de que possamos avaliar se o custo-benefício do seu uso compensa”, finaliza.


A presidente da SBRA, Hitomi Nakagawa, também cita novos procedimentos na área de reprodução assistida usados atualmente e ainda sem comprovação científica. “Todos os avanços tecnológicos, como o uso de substâncias ‘off label’ (fora do contexto para o qual foram aprovados), podem até trazer benefícios identificáveis no futuro, mas faz-se necessária a pesquisa para identificar qual pessoa será beneficiada e quais procedimentos devem ser evitados”, aponta.


A médica ressalta que as pacientes interessadas em realizar a reprodução assistida procurem informações seguras a respeito do procedimento mais adequado, tendo em vista o aparecimento de novas metodologias, inclusive aquelas que podem ser feitas em casa.


“Por isso, nos últimos anos, temos nos esmerado em fornecer informações atualizadas e contamos com profissionais de altíssimo nível creditados pela SBRA a fim de orientar sobre os vários questionamentos que têm surgido nas mídias, bem como fortalecer relações com entidades científicas afins, nacionais e internacionais, no intuito de trocarmos experiências, reforça.

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Redação

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