Opinião - De Kiev para Moscou: a retomada das tensões no front oeste

João Alfredo Lopes Nyegray* Basta olhar para o mapa-múndi: uma das nações que mais chama a atenção pelo tamanho continental e cerca de 11 fu...

João Alfredo Lopes Nyegray*


Basta olhar para o mapa-múndi: uma das nações que mais chama a atenção pelo tamanho continental e cerca de 11 fusos horários é a Federação Russa. O país considerado uma democracia imperfeita possui pelo menos dez séculos de história. Uma das explicações para  o que hoje é a Rússia inicia-se com os eslavos do centro da Europa, que partiram para o leste no século IX. Outra versão da história envolve os vikings, que saíram do que hoje é a Suécia e colonizam o leste da Europa. Em ambos os casos, o início da Rússia não se deu por Moscou, mas por Kiev. Os Rus de Kiev fundaram seu principado na atual capital da Ucrânia. Talvez por isso, o imenso interesse russo na região… Seria saudosismo?

Não parece ser o caso. Com mais de 17 milhões de quilômetros quadrados, fronteiras com 14 países e banhada ao norte pelo Oceano Ártico, a Rússia é o que muitos geopolíticos chamam de “fortaleza natural inatacável”. A posição geográfica – e a necessidade estratégica de permanecer inatacável – nos ajudam a entender parte da política externa russa. O presidente Vladimir Putin, a quem muitos chamam de “o Czar do Século XXI”, é um dos poucos que apoia o ditador de Belarus, Aleksandr Lukashenko. De Minsk, capital de Belarus, a Moscou, são 717 quilômetros que podem ser percorridos em cerca de nove horas via terrestre, graças ao relevo plano da região. 

Talvez seja também a geografia e a geopolítica – e não o saudosismo pelo Principado de Kiev – que explicam o interesse russo na Ucrânia. Apenas 860 quilômetros separam Moscou da capital ucraniana. Em 2013, insatisfeitos com a aproximação com os russos, os ucranianos foram às ruas no que ficou conhecido como Euromaidan. Após 93 dias de protestos, o presidente Víktor Yanukóvytch, que vinha se aproximando cada vez mais de Moscou, e deixando acordos com a União Europeia em banho-maria, foi deposto. 

Em 2014, os russos tomaram para si a região ucraniana da Crimeia. Esse movimento foi visto como reação à deposição do presidente Yanukóvytch no ano anterior. Putin patrocinou um referendo em que a população da região decidiria por continuar como parte da Ucrânia ou por se juntar à Federação Russa. Uma vez que a maior parte dos habitantes da Crimeia é de origem russa, o resultado do referendo não foi surpresa para ninguém. Há, nessa anexação, mais um motivo geográfico: a Crimeia, banhada pelo Mar Negro, oferece acesso marítimo a um pedaço do território da Rússia e está a menos de 2 mil quilômetros de Moscou.

Recentemente, as tensões entre Rússia e Ucrânia ganharam um novo - e ainda mais dramático - capítulo. Com a possibilidade de que a Ucrânia passe a integrar a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), um acordo militar intergovernamental para defesa mútua, os russos passaram a movimentar tropas muito próximas à fronteira com a Ucrânia. 

O receio dos russos é de que a OTAN venha em ajuda da Ucrânia – em especial para reaver a região da Crimeia. Mais de 100 mil soldados russos, tanques, blindados e moderna artilharia têm realizado exercícios militares próximos à fronteira. Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, alertou a Rússia sobre esses movimentos ainda em dezembro de 2021. Para Biden, qualquer ação russa na Ucrânia implicaria na quebra de laços entre os EUA e a Rússia, assim como outras “graves consequências”. 

Na última semana, EUA e Rússia reuniram-se em Genebra para tratar da escalada de tensões no leste da Europa. Enquanto os russos reiteram que a Ucrânia não deve entrar na OTAN,  os estadunidenses insistem na retirada das tropas russas da região de fronteira, ou seja, os países simplesmente não chegaram a um acordo após oito horas de reunião. Acomodar posições tão antagônicas é realmente um grande desafio. Qualquer um dos lados – seja EUA, seja Rússia – que ceda, poderá abrir um precedente futuro de que pressões internacionais são o suficiente para mudar suas políticas. Ainda que os russos afirmem reiteradamente que não têm intenções de invadir a Ucrânia, poucos acreditam no pacifismo de Moscou. 

Importante destacar que a política externa russa sempre foi bastante polêmica. Alexander Sergunin, professor da Universidade de São Petersburgo, comenta em suas obras que a Rússia pós-soviética tem sido vista como imprevisível e agressiva. A ofensiva na Geórgia em 2008, a anexação da Crimeia em 2014, o apoio russo ao ditador sírio Bashar al-Assad – que segue dizimando sua população – mostram uma agenda internacional muito própria de Moscou. Até então, as pressões internacionais não funcionaram para dissuadir Putin. Caso continuem as tensões entre Rússia e Ucrânia, novas sanções econômicas podem ser aplicadas aos russos – para dizer o mínimo.

Uma vez na OTAN, ao menos 30 nações poderiam responder militarmente a um pedido de socorro da Ucrânia. Não é razoável supor que um país que apoia ditadores como Assad aceitaria de bom grado tropas estrangeiras num país com o qual compartilha 1.500 quilômetros de fronteiras. As invasões do território russo dos últimos séculos vieram, em grande parte, do oeste. Estaria Putin buscando retomar o Principado de Kiev para sagrar-se em definitivo como o Czar do Século XXI?

*João Alfredo Lopes Nyegray, doutorando em estratégia, professor de Geopolítica e Negócios Internacionais e coordenador do curso de Comércio Exterior na Universidade Positivo (UP).

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