*Por Ildeu Fantini, COO do SiDi
Desde o início da década, investir em novas tecnologias tornou-se um mantra para empresas de diferentes setores. Inteligência artificial, com suas técnicas de machine/deep learning e analytics, aplicada às mais diversas formas de automação passaram a fazer parte do vocabulário corporativo, mas nem sempre com a maturidade que é necessária. O foco na inovação, especialmente em IA nos últimos anos, criou uma pressão para que as companhias invistam na ferramenta a qualquer custo, o que deixa em segundo plano a essência da tecnologia, que é trazer uma solução e não apenas uma plataforma a mais.
A adoção afobada de Inteligência Artificial trouxe à tona, recentemente, uma discussão se o investimento na ferramenta já se tornou uma bolha prestes a estourar. Segundo o Gartner, os valores investidos em IA devem bater R$ 8,01 trilhões neste ano e ultrapassar os R$ 10 trilhões em 2026, o que representa quase 2% do PIB mundial. No entanto, os ganhos com Inteligência Artificial ainda dividem os empresários, o que alimenta a especulação do cenário. Uma pesquisa do BofA Global Research, em outubro, revelou que 54% dos gestores de fundos ao redor do mundo acreditam que as ações de empresas de IA atravessam uma bolha. A preocupação deles é de que exista um entusiasmo que possa ser frustrado.
De fato, há uma percepção equivocada que pode levar a resultados errados ou insuficientes, quando alguma tecnologia é adotada por impulsividade. As soluções digitais que vão agregar benefícios são complexas, exigem estudo, preparo, estrutura robusta e governança. A promessa de ferramentas fáceis e instantâneas pode esconder riscos graves como o uso indevido, o esforço desnecessário ou, até mesmo, o acesso por terceiros de informações sensíveis. Para fins de consulta, o usuário final consegue resultados satisfatórios com IA, mas tê-la apenas com essa função é um desperdício para as empresas. A transformação digital não é construída com atalhos. Requer persistência, visão de longo prazo e disposição para entender que resultados consistentes vêm de soluções sólidas, invariavelmente difíceis de executar. O que deve guiar o investimento não é o modismo tecnológico, mas a clareza sobre o impacto estratégico que ele pode gerar.
A importância de comprovar o valor da solução
No ambiente industrial e corporativo, a pressão por resultados imediatos costuma ser o principal fator que gera frustração na adoção de tecnologia. Por isso, antes de apostar em novas soluções, as empresas querem – e precisam – ver evidências de retorno. As provas de conceito (POCs) desempenham um papel estratégico nesse cenário, pois permitem testar, mensurar e comprovar o valor de uma solução em pequena escala, sem comprometer grandes orçamentos.
Mais do que uma etapa técnica, a POC é uma possibilidade de aprendizado para a instituição e para o instituto que vai desenvolver a ferramenta, pois educa a organização sobre o potencial real da tecnologia e o que é necessário para desenvolvê-la. Quando bem conduzida por ambos os lados, o projeto terá bases para ser bem-sucedido.
Outro ponto crucial é envolver todas as áreas estratégicas relevantes para o cenário desejado, não apenas o time de tecnologia. As iniciativas com melhores resultados são aquelas em que TI, operações e negócios atuam em conjunto, conectando a capacidade técnica à necessidade real do momento. O time de tecnologia nem sempre conhece as especificidades técnicas da produção diária e, vice-versa, é comum o time de operação não ter o entendimento dos possíveis benefícios com a aplicação de determinadas tecnologias. A combinação dos conhecimentos é essencial para guiar as funcionalidades da solução.
POCs bem planejadas também ajudam a quebrar resistências culturais. Ao demonstrar resultados tangíveis, mesmo que em pequena escala, elas aumentam significativamente as chances de sucesso, fortalecem a confiança dos gestores e reduzem o medo de investir. Em um cenário em que a indústria é naturalmente cautelosa com novos gastos, a prova de conceito é a ponte entre a teoria e a prática, entre a inovação e o retorno mensurável.
No fim, todas as áreas querem bons resultados e soluções que evoluam o trabalho, que é a verdadeira essência da inovação. Em tempos de constante transformação digital, empresas que se destacam não são as que adotam tecnologia primeiro, mas as que aderem corretamente. Construir bases sólidas e saber o propósito da tecnologia é o que faz as companhias furarem a bolha e garantirem o sucesso.


