Primeira mulher da família a cursar o ensino superior, Ely Bender construiu uma trajetória pioneira na Farmácia e nas análises clínicas no Centro-Oeste.
Pioneira de Brasília, descendente de imigrantes alemães e primeira mulher da família a cursar o ensino superior, Edy Elly Bender Kohnert Seidler, de 85 anos, chegou à capital em 1968, recém-formada em Farmácia e Bioquímica pela Universidade Federal de Santa Catarina. No mesmo ano, fundou o Laboratório Brasiliense de Análises e Pesquisas Clínicas, uma das instituições mais sólidas do setor no Centro-Oeste e referência nacional em patologia gastrointestinal. Em 1986, Dra. Edy, como é conhecida, também criou o Sindlab-DF. No ano seguinte, passou a integrar os Conselhos Regionais do Sesc-DF e do Senac-DF, alternando-se entre os dois colegiados. Após seis décadas de empreendedorismo e atuação na saúde, ela defende mais atenção à saúde primária e compaixão com o próximo. “Temos que pensar que aquela pessoa pode ser alguém da nossa família. Quando olhamos para o paciente com amor e preocupação verdadeira pelo bem-estar dele, a saúde se torna mais humana”, destacou.
“Acredito que precisamos olhar com mais atenção para a saúde preventiva e, ao mesmo tempo, cultivar um coração mais aberto, especialmente entre aqueles que atendem pacientes todos os dias.”

1- A senhora fundou o Laboratório Brasiliense em 1968, em uma cidade com apenas oito anos de existência. O que a trouxe a Brasília e como foram esses primeiros tempos?
Vim a convite de um irmão meu, que já estava aqui. Cheguei sozinha, recém-formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e com a pós-graduação concluída em São Paulo, no Instituto Adolfo Lutz e no Instituto Butantan. Antes de Brasília, cheguei a montar um pequeno laboratório em Curitibanos, em Santa Catarina, mas a perspectiva da nova capital era irresistível para uma jovem profissional da minha geração. Brasília era literalmente um canteiro de obras quando aqui cheguei, mas se respirava um sentimento muito particular — o de que tudo estava por ser construído, e de que havia espaço para quem tivesse coragem de se estabelecer.
Instalei o Laboratório Brasiliense no Setor Comercial Sul, oferecendo inicialmente apenas serviços de análises clínicas. Era uma estrutura modesta, mas com um padrão de qualidade que fiz questão de manter desde o primeiro dia. Eu vinha de uma escola técnica rigorosa e entendia que a credibilidade de um laboratório se constrói exame por exame, paciente por paciente. Essa convicção nunca me abandonou.
2- Fale sobre a fundação do Sindicato dos Laboratórios de Pesquisas e Análises Clínicas (Sindlab-DF) e os desafios enfrentados à época.
O Sindlab foi fundado em 1986 com o apoio do doutor Newton Rossi, um dos fundadores da Fecomércio-DF. Ele foi uma pessoa muito importante para o setor produtivo e iniciou um movimento para que os empresários tivessem consciência do valor deles na formação de Brasília e do comércio da cidade.
Eu era praticamente sozinha. Foi uma luta convencer os colegas de laboratório de que precisávamos nos unir para reivindicar os objetivos do setor de análises clínicas.
Naquela época, cada um pensava muito em si. Faltava senso coletivo, mas hoje conseguimos ver mais união entre os empresários e também a presença de mais mulheres. Antes os homens não acreditavam que poderíamos nos unir e trabalhar pelo bem dos laboratórios e da saúde no Distrito Federal.
3- A senhora é descendente de imigrantes alemães, nascida em Piratuba, Santa Catarina. De que forma essa origem influenciou sua trajetória profissional?
Minha família era de comerciantes, e o trabalho sempre foi tratado como um valor inegociável. Cresci vendo meus pais e avós construírem suas vidas pelo esforço diário, e isso me marcou profundamente. A herança alemã, no meu caso, traduziu-se em disciplina, método e uma relação muito séria com o compromisso assumido. Quando se trabalha com saúde, isso não é detalhe: é o alicerce de tudo.
Há, porém, uma história que considero o ponto de partida de tudo. Meus pais, no dia do casamento, fizeram uma promessa um ao outro: que dariam aos seus filhos a oportunidade de estudar. Naquele tempo, em uma comunidade rural de Santa Catarina, no início do século XX, isso não era uma decisão óbvia. Mais ainda quando, entre esses filhos, havia meninas. Para a maioria das famílias daquela época e daquele lugar, instruir as filhas era considerado supérfluo, quando não inconveniente. Meus pais pensaram diferente. Eles entenderam que a educação era a única herança que ninguém poderia tirar dos filhos, e se esforçaram, durante toda a vida, para honrar aquela promessa.
Tenho consciência de que sou a primeira mulher da minha família a cursar o ensino superior, mas reconheço que isso não foi conquista minha — foi conquista deles. Tudo o que vim a construir depois é, em grande medida, consequência daquela promessa feita em um casamento, há mais de cem anos.
4- O Laboratório Brasiliense começou exclusivamente com análises clínicas. Como se deu a transformação que levou a empresa a se tornar referência nacional em patologia gastrointestinal?
A virada aconteceu em 2005, quando meu filho Heinrich retornou do doutorado no Japão, onde se especializou em patologia gastrointestinal. Ele identificou, ao chegar, três condições que se encaixavam perfeitamente: o movimento de grandes empresas do ramo médico em direção a Brasília; a consolidação do Distrito Federal como um dos polos nacionais da gastroenterologia, com prestação de serviços de alto nível; e o desenvolvimento acelerado da oncologia gastrointestinal como campo de pesquisa e investimento internacional. Foi uma confluência rara, e tivemos a sensibilidade de reconhecê-la.
Passamos a oferecer serviços de anatomia patológica com foco específico no trato digestivo e construímos parcerias sólidas com os médicos assistentes — aqueles que estão em contato direto com o paciente. Esse trabalho conjunto, sustentado por décadas, foi o que permitiu ao laboratório desenvolver uma capacidade elevada de resolução de casos complexos, formando o nosso principal diferencial em relação aos laboratórios gerais.
Ao longo desses anos, o conhecimento gerado no laboratório foi também compartilhado com a comunidade científica, por meio de publicações em revistas especializadas e apresentações em congressos internacionais. Para uma empresa que começou em uma sala do Setor Comercial Sul, ver o nosso trabalho técnico contribuir com a literatura científica internacional é motivo de muito orgulho.
Hoje, o Laboratório Brasiliense atua em diversos estados além do Distrito Federal — São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins e Acre. Cerca de 40% do nosso movimento já vem de fora do DF. Significa que, sem alarde, a empresa que comecei sozinha em 1968 se tornou uma referência que extrapolou as fronteiras da capital. É a confirmação de que a aposta na qualidade técnica, sustentada ao longo de décadas, sempre encontra o seu reconhecimento.

5- A senhora tem dois filhos envolvidos com a empresa. Como tem se dado o processo de sucessão familiar?
A sucessão familiar é, na minha visão, o capítulo mais delicado da vida de qualquer empresário. Não é apenas uma transição patrimonial — é a passagem de uma cultura, de um conjunto de valores, de uma forma de tratar o cliente e o colaborador. No nosso caso, esse processo tem ocorrido de maneira muito orgânica, ao longo dos anos, e isso é uma bênção.
Meu filho Heinrich é médico patologista e atua como diretor técnico do Laboratório, responsável pela área que hoje é o nosso maior diferencial competitivo. Minha filha Heide, formada em Economia e empresária em sua própria atividade, contribui informalmente com questões administrativas do negócio, sempre que necessário. São perfis complementares, e eu tenho a felicidade de ver que ambos compreendem a essência do que foi construído. Hoje, atuo principalmente na parte administrativa e nos órgãos de conselho da empresa, com a tranquilidade de saber que a próxima geração já assumiu a gestão com competência e afinco.
Costumo dizer que o maior legado que se pode deixar não é uma empresa — é a confiança de quem a recebe. E essa confiança, na nossa família, foi construída com diálogo permanente.
6- Desde 1987, a senhora participa dos Conselhos Regionais do Sesc-DF ou do Senac-DF, alternando a presença nesses dois colegiados. Como é essa experiência e o que essas instituições significam para a senhora?
O Sesc-DF e o Senac-DF são instituições pelas quais nutro um respeito muito especial, e tive o privilégio de contribuir como conselheira em ambas. Cada uma, à sua maneira, presta um serviço fundamental à sociedade brasileira. O Senac, sobretudo, oferece ao trabalhador uma porta de entrada qualificada para o mercado de trabalho e, ao empresário, mão de obra preparada. Em um país com tantas desigualdades educacionais, essa missão é insubstituível.
Recebi uma das homenagens que mais me emocionaram em toda a minha trajetória, que foi ter meu nome dado à Policlínica do Sesc da 913 Sul, em 2022.
Para uma profissional da saúde, ter o nome associado a uma unidade que cuida da saúde de tantas famílias é um reconhecimento que ultrapassa qualquer titulação. É a confirmação de que o trabalho discreto, feito ao longo de décadas, encontra eco além do que se espera.
7- Tem alguma mensagem que a senhora gostaria de destacar para os leitores da nossa revista?
Acredito que precisamos olhar com mais atenção para a saúde preventiva e, ao mesmo tempo, cultivar um coração mais aberto, especialmente entre aqueles que atendem pacientes todos os dias.
O paciente não pode ser visto apenas como um número, um exame ou um resultado. É uma pessoa. E precisamos lembrar que aquela pessoa poderia ser alguém da nossa família.
Quando olhamos para o paciente com amor, respeito e preocupação verdadeira com o seu bem-estar, a saúde se torna mais humana. No fim, é disso que mais precisamos: ser mais humanos.


