Competitividade em risco: o desafio de produzir e investir no país

 Representantes do setor produtivo defendem prudência diante de possíveis mudanças nas regras trabalhistas e alertam para os efeitos sobre empresas, empregos e a economia.

A proposta de reduzir a jornada de trabalho tem gerado apreensão entre empresários e entidades do setor produtivo. Para eles, a discussão precisa ser ampla e considerar as consequências práticas para empregadores, trabalhadores e para o desenvolvimento econômico do país.

Na avaliação do empresariado, o Brasil já impõe uma estrutura complexa a quem produz: carga tributária elevada, encargos trabalhistas, burocracia e custos operacionais relevantes. Nesse cenário, alterações nas normas trabalhistas próximas ao período eleitoral — sem estudos aprofundados — podem aumentar a insegurança e encarecer ainda mais a atividade produtiva.

“Não é o momento de alterar as regras do trabalho às vésperas das eleições.” Essa é a síntese da posição de lideranças empresariais, que pedem estabilidade regulatória, segurança jurídica e condições favoráveis ao investimento e à criação de vagas.

Para o setor, a confiança é determinante. Quando há incerteza econômica, fiscal ou regulatória, investidores tendem a procurar mercados considerados mais previsíveis e competitivos.

Capital e empresas procuram outros caminhos

Em 2024, a Bolsa brasileira registrou saída líquida de R$ 32,1 bilhões em capital estrangeiro. Críticos do ambiente econômico usam esse dado para reforçar a necessidade de recuperar a confiança de investidores.

Também preocupa o movimento de empresas nacionais que ampliam operações fora do país ou transferem parte de suas estruturas para mercados mais competitivos.

O Paraguai é frequentemente citado por oferecer incentivos à produção, como o regime de Maquila. Estados Unidos e países europeus também aparecem entre os destinos avaliados por grupos empresariais.

Há ainda a alegação, feita por representantes do setor, de que 23 empresas brasileiras teriam se transferido para o Paraguai. Como o número não foi identificado em fonte oficial durante a apuração, deve ser tratado como uma informação atribuída ao setor, e não como dado consolidado.

O ponto central é que cada decisão de investir fora, abrir uma unidade internacional ou direcionar recursos a outro mercado leva em conta tributação, custos, segurança jurídica e perspectiva de crescimento.

Reforma tributária amplia as dúvidas

A reforma tributária, criada com a promessa de simplificar o sistema de impostos, também está no centro das preocupações empresariais.

O novo modelo prevê a substituição gradual de tributos pelo IVA dual, formado pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS).

A alíquota-padrão de referência era de 26,5%. Em agosto de 2026, uma projeção do Comitê Gestor do IBS apontou 27,91% como estimativa para arrecadação em 2027.

Esse percentual não representa uma alíquota definitiva, mas evidencia a dimensão do debate sobre a futura carga tributária. Para o setor produtivo, a regulamentação ocorre em um momento de juros altos, crédito caro e desaceleração em alguns segmentos.

Sem clareza sobre as regras, decisões de contratação, expansão e abertura de novas unidades podem ser postergadas.

Endividamento pesa sobre famílias e negócios

O consumo também preocupa. Dados da CNC indicam que 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho de 2026, o maior nível da série histórica pelo sexto mês seguido. A pesquisa mostrou ainda que 29,5% da renda familiar estava comprometida com dívidas.

Com o orçamento mais apertado, o consumo tende a perder força, afetando diretamente comércio e serviços. Para empresas, isso significa possível queda nas vendas em um período de custos ainda elevados.

As empresas também enfrentam dificuldades. Segundo a Serasa Experian, mais de 9,1 milhões de CNPJs estavam inadimplentes em junho de 2026, com dívidas acumuladas de R$ 232,9 bilhões.

Os pedidos de recuperação judicial reforçam esse cenário. O primeiro semestre de 2026 terminou com 6.341 empresas em recuperação judicial, alta de 6,2% em comparação com o fim de 2025, segundo o Monitor RGF-BizDoc.

A pressão é ainda maior sobre negócios menores. Desde 2023, o número de microempresas em recuperação judicial praticamente triplicou, enquanto pequenas e médias empresas também apresentaram crescimento expressivo.

Taxa das blusinhas e concorrência desigual

Além das dificuldades internas, o varejo questiona a competição com vendedores internacionais. Um dos principais exemplos é a tributação sobre compras de baixo valor feitas no exterior, popularmente chamada de “taxa das blusinhas”.

Representantes do comércio afirmam haver uma diferença relevante entre a cobrança aplicada a importações de até US$ 50 e os tributos incidentes sobre produtos vendidos por empresas brasileiras.

Enquanto compras internacionais podem ter tributação federal de 20%, empresas instaladas no país enfrentam uma carga total que pode chegar a 40% ou 45%, conforme atividade, produto e regime tributário.

A comparação não se refere necessariamente a um único imposto, mas busca mostrar a diferença entre o custo de uma compra internacional e o peso tributário suportado por quem produz ou vende dentro do Brasil.

Para pequenos e médios varejistas, essa diferença cria uma concorrência considerada desequilibrada.

Cautela antes de ampliar obrigações

Na visão do setor produtivo, os desafios precisam ser analisados em conjunto: endividamento alto, crédito restrito, juros elevados, custos operacionais crescentes, dúvidas tributárias e investimentos direcionados a outros mercados.

É nesse contexto que empresários questionam a redução da jornada de trabalho. A preocupação não se limita à jornada, mas aos possíveis efeitos sobre folha de pagamento, produtividade, contratações, organização das empresas e geração de empregos.

A posição do setor é de que uma mudança dessa dimensão deve ser precedida por estudos, diálogo e avaliação dos impactos em diferentes áreas da economia.

A mensagem é clara: para que empresas invistam, cresçam e contratem no Brasil, precisam de previsibilidade e segurança jurídica.

Antes de criar novos custos para quem empreende, é preciso ouvir quem enfrenta os desafios diários de produzir, empregar e manter a economia em funcionamento.

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem