Após mais de 30 anos no Exército, Eduardo Soeiro prepara nova fase como empreendedor

Coronel do Exército, charcuteiro por paixão e criador da Confraria do Malte, Eduardo Soeiro se prepara para deixar a ativa e transformar hobbies construídos ao longo dos últimos anos em novos projetos profissionais



Depois de mais de três décadas dedicadas ao Exército Brasileiro, Eduardo Soeiro se prepara para uma nova fase da vida. Coronel, charcuteiro por paixão e entusiasta do universo do whisky, ele vem construindo, ainda de forma artesanal, projetos que unem técnica, disciplina e prazer: a Soeiro Charcutaria e a Confraria do Malte.

Nascido no Rio de Janeiro e integrante de uma família com forte tradição militar, Soeiro afirma que a escolha pela carreira no Exército aconteceu de maneira natural. Filho, neto e bisneto de militares, ele cresceu em vilas militares e no ambiente dos quartéis.



“Eu cresci nesse meio, eu cresci nas vilas militares, eu cresci no meio dos quartéis e essa é a profissão que eu admirei a vida inteira”, conta.

A trajetória o levou à Academia Militar das Agulhas Negras e, posteriormente, a diferentes regiões do Brasil. Foi durante períodos no Rio Grande do Sul que surgiu uma das paixões que, anos depois, se tornaria um projeto pessoal: a charcutaria.

O contato com salames, linguiças e a cultura gastronômica gaúcha despertou a curiosidade. Quando chegou a Brasília, Soeiro decidiu que queria aprender a produzir os próprios alimentos.

“Eu pensei: eu preciso fazer isso, preciso fazer isso por hobby, porque é gostoso. Se o que eu como lá é gostoso, talvez eu consiga fazer uma coisa muito mais legal. E aí eu mergulhei no assunto e não parei mais.”

O início foi marcado por estudo, testes, erros e acertos. O primeiro produto foi um salame artesanal, produzido em março de 2020. No começo, ele distribuía as peças entre amigos e vizinhos. A mudança aconteceu quando os produtos deixaram de ser apenas presentes.

“Chegou um momento que eu estava gastando mais dinheiro dando presente pros outros do que produzindo alguma coisa. E aí eu parei de oferecer. No momento em que eu parei de oferecer, as pessoas disseram: ‘Faz que eu compro’.”



Foi assim que surgiu a ideia da Soeiro Charcutaria. Entre os produtos desenvolvidos, um dos que mais ganhou destaque foi o salame com pistache, criado antes da popularização do ingrediente no mercado brasileiro.

Segundo Soeiro, a produção artesanal exige atenção especial a fatores como fermentação, controle de pH, umidade e temperatura. Para ele, a principal diferença entre um produto industrial e um artesanal está justamente no respeito ao processo e na busca por sabor.

“É aquilo que é feito com respeito ao tempo, respeito à técnica, diminuindo o número de conservantes para que você tenha um produto mais seguro, com menor validade, mas muito mais sabor.”

Hoje, a produção permanece limitada de forma proposital. Ainda na ativa no Exército, Soeiro afirma que preferiu não transformar o projeto imediatamente em uma operação de grande escala. A estratégia foi usar esse período para adquirir conhecimento, aperfeiçoar receitas e criar uma base de clientes.

“Eu optei por aproveitar esse tempo que eu tenho de Exército para fazer tudo devagar, com calma, ganhando conhecimento, ganhando expertise, criando uma comunidade para quando eu fosse embora, com o tempo disponível, fazer aquilo não do zero.”

Com a aproximação da reserva, o projeto deve ganhar uma nova dimensão. Soeiro planeja se mudar para Lagoa Vermelha, no Rio Grande do Sul, onde pretende estruturar formalmente a atividade, com espaço de produção adequado e todos os processos de legalização.

“Eu tenho um projeto de fazer tudo da forma que deveria ser feito, desde uma planta, desde a legalização de tudo que precisa.”

A expectativa, segundo ele, é ter o negócio estruturado até o fim de 2027.

Além da charcutaria, Eduardo também está à frente da Confraria do Malte, um grupo criado inicialmente para reunir amigos interessados em comprar e conhecer rótulos de whisky diferentes dos encontrados normalmente no mercado brasileiro.

“A Confraria do Malte é um grupo de amigos que se reúne para beber whisky, mas não de forma comum.”

O projeto surgiu depois que pequenas compras coletivas começaram a reunir cada vez mais participantes. Com o tempo, os encontros passaram a combinar degustação, estudo sobre os rótulos e convivência social.

“A gente vai estudar o mundo do whisky. E assim nasceu a confraria e assim ela permanece até hoje com esse intuito.”

Para Soeiro, o consumo da bebida ganha outra dimensão quando acompanhado de conhecimento.

“A chance que eu tenho é de mostrar para as pessoas que você pode beber sem ser para se embriagar, transformando aquilo num hobby. O conhecimento agrega muito prazer no que você está fazendo.”

A disciplina adquirida no Exército também influencia diretamente a maneira como ele conduz os dois projetos. Planejamento, organização, avaliação dos resultados e busca constante por melhoria fazem parte da rotina.

“Sem objetivos bem traçados, só por acaso se chega a algum lugar.”

Ao mesmo tempo, Soeiro reconhece que o excesso de planejamento pode se transformar em obstáculo quando o assunto é empreendedorismo. Uma das principais lições aprendidas ao longo do processo foi entender que nem sempre é necessário esperar pelo cenário ideal.

“No empreendedorismo, eu preciso ter um produto mínimo viável. Eu não posso esperar o produto perfeito.”

A ideia é resumida por ele de maneira ainda mais simples: “Começar pequeno. Isso eu aprendi fazendo. Começar do jeito que dá.”

Para quem tem um hobby, uma habilidade ou uma ideia que ainda não colocou em prática, Soeiro recomenda testar, ouvir outras pessoas e enfrentar o medo de não estar preparado.

“Combata a síndrome do impostor, porque a gente sempre acha que ainda não é o momento e acaba procrastinando. E levanta e faz.”



Mais do que transformar um hobby em fonte de renda, Eduardo afirma que pretende construir uma atividade que continue fazendo sentido pessoalmente.

Ao imaginar o futuro, ele resume o objetivo em uma frase: “Eu quero olhar para trás e dizer assim: ‘Caramba, eu me diverti muito fazendo isso. Que bom que deu certo’.”


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