Gen Z: a geração que está redesenhando a economia digital na palma da mão

 



Por Walter Campos*

 

A Geração Z não está apenas consumindo tecnologia de forma diferente, mas sim, redefinindo os critérios que determinam o sucesso de produtos digitais, serviços financeiros e plataformas de consumo. Nascidos entre meados dos anos 1990 e o início da década de 2010, esses jovens cresceram em um ambiente totalmente conectado, cercados por smartphones, redes sociais e serviços digitais. Como resultado, consolidaram um novo padrão de experiência baseado em velocidade, conveniência e personalização.

Embora os millennials tenham impulsionado a digitalização de diversos serviços, foi a Geração Z que transformou a fluidez digital em expectativa básica. Para esse público, experiências fragmentadas, processos excessivamente burocráticos ou jornadas longas representam obstáculos que comprometem diversos fatores envolvendo prestação de serviços ou vendas.

Esse comportamento tem influenciado diretamente as estratégias de empresas de tecnologia, fintechs, varejistas e instituições financeiras. Se antes os produtos digitais eram desenvolvidos prioritariamente para computadores e posteriormente adaptados aos dispositivos móveis, hoje a lógica é inversa, pois o smartphone tornou-se o principal ponto de contato entre consumidores e marcas, orientando desde o design até a arquitetura dos serviços.

Os números ajudam a explicar essa mudança. Segundo o relatório Digital 2025 Brasil, o brasileiro passa, em média, mais de 5 horas por dia [1] utilizando o smartphone. Mais do que um dispositivo de comunicação, ele se tornou a principal ferramenta para resolver tarefas cotidianas, consumir conteúdo, realizar compras, efetuar pagamentos e acessar serviços.

Nesse contexto, a chamada dromocracia, conceito que descreve uma sociedade orientada pela velocidade, deixa de ser apenas uma característica cultural para se tornar um fator determinante na construção de produtos digitais. Quanto mais simples, rápida e intuitiva for a experiência, maior a probabilidade de engajamento e fidelização.

Mais do que consumidores de tecnologia, os integrantes da Geração Z atuam como catalisadores da inovação digital. Seu comportamento influencia o desenvolvimento de experiências cada vez mais inteligentes, imersivas e apoiadas por recursos como inteligência artificial, automação, analise de dados em tempo real e realidade aumentada. Tecnologias que há poucos anos eram consideradas disruptivas passaram, rapidamente, a integrar a rotina de uma geração que valoriza conveniência, personalização e respostas instantâneas.

Nesse cenário, a expectativa já não se resume à velocidade. Os usuários esperam experiências capazes de compreender contextos, antecipar necessidades e oferecer recomendações relevantes. A inteligência artificial ganha protagonismo justamente por permitir interações mais personalizadas e eficientes, reduzindo o esforço necessário para executar tarefas e tomar decisões.

A incorporação dessas tecnologias ao cotidiano deixou de ser uma tendência para se tornar uma realidade consolidada. Pesquisa da Deloitte mostra que mais de 70% dos jovens brasileiros da Geração Z já utilizam ferramentas de inteligência artificial em atividades de estudo ou trabalho, evidenc[2] iando o grau de familiaridade dessa geração com tecnologias emergentes.

A busca por praticidade e conveniência também ajuda a explicar a expansão dos chamados ecossistemas digitais. Nesses ambientes, o usuário consegue pesquisar um produto, concluir uma compra, realizar pagamentos, acompanhar entregas e solicitar suporte sem precisar alternar entre diferentes plataformas. Trata-se de uma experiência integrada que responde diretamente às expectativas de uma geração que valoriza fluidez ao longo de toda jornada.

A geração que está redefinindo os serviços financeiros

Entre todos os setores impactados por essa nova lógica de consumo digital, poucos passaram por uma transformação tão profunda quanto o mercado financeiro.

O avanço das fintechs, dos bancos digitais e dos meios de pagamento instantâneos está diretamente relacionado às preferências de consumidores que priorizam experiências sem fricção. O que antes exigia visitas a agências e processos demorados hoje pode ser resolvido em poucos minutos por meio de um aplicativo, desde a abertura de contas até pagamentos, investimentos e contratação de serviços financeiros.

Pesquisa da Ipsos para o Nubank mostra que 66% dos brasileiros já utilizam aplicativos para pagamentos e consultas financeiras. Entre os mais jovens, a digitalização é ainda mais evidente. Os dados apontam que 14% dos integrantes da Geração Z nunca realizaram depósitos em agências bancárias [3] nem utilizaram caixas eletrônicos, evidenciando uma relação quase exclusivamente digital com o dinheiro.

O setor de pagamentos também vem sendo remodelado por esse novo comportamento. Estudo do Itaú Unibanco revela que 63% dos jovens utilizam cartão de crédito como principal meio de pagamento, enquanto 38% preferem pagamentos por aproximação e 36% realizam compras online regularmente. [4] 

Nesse ambiente, recursos como Pix, carteiras digitais, cashback, autenticação biométrica e atendimento em tempo real deixaram de ser diferenciais para se tornar elementos básicos esperados pelos consumidores.

Essa preferência ajuda a explicar a velocidade com que fintechs e bancos digitais conquistaram espaço entre os jovens consumidores. Mais do que oferecer produtos financeiros, essas empresas conseguiram simplificar processos historicamente marcados por burocracia, excesso de etapas e baixa transparência.

O futuro será cada vez mais mobile first

Mais do que uma transformação tecnológica, esse movimento representa uma mudança cultural. A Geração Z consolidou um novo padrão de experiência digital baseado em conveniência, velocidade e integração.

À medida que sua participação no mercado consumidor cresce, aumenta também a pressão para que empresas desenvolvam soluções capazes de concentrar diferentes serviços em um único ambiente, reduzindo a complexidade da jornada do usuário. Experiências que exigem múltiplas etapas ou processos excessivamente complexos tendem a perder espaço diante de plataformas mais intuitivas.

O desafio das empresas já não é apenas digitalizar processos, mas construir experiências capazes de antecipar necessidades, integrar serviços e eliminar continuamente pontos de atrito. E, em um mercado cada vez mais orientado pela experiência, a vantagem competitiva estará menos na tecnologia em si e mais na capacidade de transformar complexidade em simplicidade.

*Walter Campos é general manager LATAM da Yuno


 [1]a página citada de DataReportal  mostra estatísticas digitais gerais do Brasil e não confirma claramente esse número nas evidências acessíveis desta revisão.

Uma compilação secundária baseada em DataReportal sugere 4,82 horas por dia para o Brasil, o que torna o “mais de 5 horas” pelo menos insuficientemente suportado pela fonte citada.

 [2]a Deloitte citada fala de Gen Z global, não especificamente do Brasil, e mede uso de IA no trabalho do dia a dia, não “estudo ou trabalho”. O dado correto recuperado é 74% de Gen Zs reportando uso de IA “to some extent in their day-to-day work”.

 [3]erro ao dizer que 14% da Gen Z nunca realizou depósitos em agências bancárias nem utilizou caixas eletrônicos. A fonte diz que 1 em cada 4 jovens de 18–25 nunca fez depósito em caixas eletrônicos e que 14% jamais realizaram saque nessas máquinas.

 [4]a fonte sustenta que, na Gen Z, 36% das compras são online, 38% das compras presenciais usam aproximação, e, somando cartão + Pix, 63% das compras foram no crédito e 37% no Pix no recorte analisado.

O artigo reescreve isso como “63% dos jovens utilizam cartão de crédito como principal meio de pagamento”, o que é mais amplo e mais categórico do que o estudo mostrado.

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